"Laços Amorosos Atuais"

Sabemos que a felicidade não está na programação do homem (O mal-estar na civilização -Freud, 1974), sendo impossível ao psicanalista estabelecer modelos para um relacionamento feliz, ideal, onde existe uma perfeita sintonia. As sociedades tornaram-se globalizadas onde quem dita as regras é o mercado. Vivemos uma vida líquida na sociedade "líquido-moderna" como uma "vida de consumo" que projeta o mundo e todos os seus fragmentos animados e inanimados como objetos de consumo" (Baumann, 2007). Hoje em dia tanto homens quanto mulheres moram sozinhos, a emancipação da mulher mudou as relações familiares , muitas mulheres que não desejam mais ter filhos, o casamento tradicional homem-mulher, onde o homem é o provedor. O avanço científico proporcionou o aparecimento de famílias monoparentais, onde a presença do pai não tem mais o mesmo peso. E a legalização das relações homoafetivas e a adoção de crianças por casais homossexuais ampliou ainda mais esse quadro. Atualmente as relações são instáveis e fugazes, o objeto amoroso é descartável como qualquer objeto seguindo a lógica do mercado, a lógica do consumo. As relações têm que ser light no sentido da falta de compromisso, mas ao mesmo tempo têm de ser algo da ordem de um excesso e do espetacular. Não há diferença entre o público e o privado, Encontros e rompimentos são vividos e totalmente compartilhados nas redes sociais. Paralelamente, há a necessidade de passar rapidamente pelo luto, atenuar a dor, diminuir a angústia e calar o sofrimento frente às perdas e decepções afetivas são as soluções mais buscadas atualmente. No sentido psicanalítico, podemos dizer que a mulher sofre de duas faltas: a falta-a-ser, que constitui todo ser humano e a falta de um significante, que define a feminilidade. Por isso, ela se aproxima do homem na relação amorosa pedindo que ele a defina. Se uma mulher aspira encontrar seu homem, é precisamente como uma consequência de não "ser toda" e precisar de uma ancoragem para seu ser e para o seu gozo (Zalcberg, 2007). Sendo assim, uma mulher faz de tudo para ser amada, na falta de uma definição para sua feminilidade, precisa de palavras, palavras de amor, e se elas não vêm, advém uma verdadeira devastação que, ao final das contas, revive o relacionamento mortífero com a figura materna na infância. Por isso o amor é tão insistente e tão importante para a mulher, assim como as palavras de amor, que representam para ela uma restauração narcísica. O sentimento de perda de amor é muitas vezes vivido como uma devastação. Muitos afirmam que o homem chega ao amor através do sexo, e a mulher chega ao sexo através do amor. Como fica isso hoje? Na atualidade, uma das dimensões do masculino está atrofiada: o cavalheirismo. As mulheres se ressentem, por outro lado, estão bem mais ativas e arrojadas quanto à abordagem sexual dispensando a “corte” masculina e até a dimensão do amor na relação. A clínica demonstra que geralmente as relações anaclíticas têm mais estabilidade e duração, enquanto as relações narcísicas, muito embora mostrem um alto teor de atração sexual, em geral têm uma durabilidade menor, pois são atravessadas por um alto grau de agressividade e competitividade, Se observarmos os mais jovens (geração Y), existe também uma certa incongruência entre o discurso e a prática nas escolhas amorosas, a escolha é predominantemente narcísica (escolha ativa – amar) mas as queixas são de falta de cuidado, atenção, isto é, a demanda é anaclítica (escolha passiva – ser amado). Sendo assim, os relacionamentos estão abertos, fugazes, mas se invade a privacidade do outro através de mensagens nos celulares, redes sociais criando mais canais para desentendimentos. De fato as mudanças da era vitoriana para os dias atuais, que afetaram principalmente as relações amorosas, foram radicais, mas percebemos que ainda permanece o desejo de se fazer vínculos. A tentativa de cada pessoa em sair da solidão, à sua maneira, tenta iludir o desamparo e a incompletude, pois o amor ainda é o que consegue fazer laço entre o real e o simbólico.

(Adaptação : Circulo Psicanalítico de MG – 2013 – Ana Cristina T. C. Salles / Nina Rosa A. Sanches / Rosa Maria G. Abras)

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