"O HUMOR NO DIVÃ DE FREUD"

"Como os chistes e o cômico, o humor tem algo de libertador a seu respeito, mas possui, também, qualquer coisa de grandeza e elevação que faltam às outras duas maneiras de obter prazer da atividade intelectual" (FREUD, 1990, p.190).

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"O HUMOR NO DIVÃ DE FREUD"

Impossível pensar em humor e psicanálise e não pensar no chiste. Outra coisa difícil é ler a palavra chiste e não achar que ela é um pouco estranha. Vou aproveitar essa estranheza e usa-la como ponto de partida para falar do chiste. Isso porque o chiste traz sempre algo de inadequação: muitas vezes é um neologismo ou, se não o é, é uma palavra utilizada em um lugar inesperado e que revela um significado diferente do que costuma ter. É muito comum falar de "contraste de ideias" ou "sentido no nonsense" ao tentar definir o chiste. Mas o chiste tem outra característica fundamental: o riso. Suponhamos que eu esteja conversando com alguém e a pessoa diz algo "sem querer"; se eu rio desse algo, e a pessoa também, fez-se um chiste. Se a pessoa não rir, aí temos um lapso, um ato falho, mas não o chiste, pois esse não existe sem o riso.

Para Freud, o humor é uma forma de recusa da realidade. Tentamos através do humor nos defender de situações reais difíceis que não podem ser evitadas de outra forma. Assim, o chiste seria como uma válvula de escape do inconsciente que o utilizaria para dizer de forma lúdica e engraçada o que não poderia fazê-lo de outro modo.

Para exemplificar vou recorrer a uma das situações descritas por Freud em seu livro Os chistes e sua relação com o inconsciente. O episódio foi tirado do livro Reisebilder (Quadros de Viagens) de Heine, poeta e escritor alemão. Heine dá o nome de um conhecido seu, Hirsch-Hyacint, ao personagem. Hirsch-Hyacinth no livro é um morador de Hamburgo, agente de loteria e mordomo profissional, que vive se gabando de manter relações próximas com Salomón Rothschild, uma das personalidades mais ricas da Alemanha. Hirsch-Hyacinth comenta: "E tão certo como Deus há de me prover todas as coisas boas, doutor, sentei-me ao lado de Salomón Rothschild e ele me tratou como seu igual - totalmente familionario.".

O primeiro ponto importante é que se ele tivesse dito, por exemplo, "ele me tratou de igual para igual" não teria havido chiste, pois é imprescindível o surgimento de algo novo. Nesse caso a novidade foi o neologismo familionario. Esse neologismo é o que comunica, o que revela, embora tenha surgido como algo errado e por isso causado desconcerto, ao parecer ininteligível e enigmático. Depois da surpresa inicial, há a descoberta dos novos sentidos e valores trazidos por aquela expressão. O efeito cômico dela remonta justamente à possibilidade de interpretá-la, revelando o sentido escondido à primeira vista.

O chiste apresenta duas fontes de prazer: a verbalização do jogo das palavras sem sentido, e o prazer de escapar da censura, de dizer o que se quer dizer sob disfarce. Freud lê esse chiste da seguinte forma: se entendermos apenas a parte mais óbvia da frase teríamos que "Rothschild me tratou como um igual - familiarmente." Mas aí se perde a segunda parte da sentença, condensada no chiste: a referência ao milionário. Familiarmente condensada a milionário, faz surgir como substituto familionario.

Essa condensação de ideias em uma só palavra revela outra característica do chiste, dizer muito falando pouco, ou o máximo de sentido em um mínimo de suporte. O que isso quer dizer é que o chiste é sempre breve no sentido de que não pode haver explicações demasiadas. Seu sentido surge no impulso, é um acontecimento entre quem fala e quem ouve, onde o surgimento de sentido inesperado causa riso.

O chiste então é, necessariamente, algo surpreendente, não planejado, diferente da piada, que é criada com o intuito de entreter. Para Freud, há dois tipos de piadas: inócuas e tendenciosas. As piadas inócuas são aquelas que nos proporcionam prazer apenas por causa das técnicas utilizadas para formá-la, como os jogos de palavras, representação pelo oposto, condensação, etc. Já as piadas tendenciosas são aquelas que têm uma finalidade - a mesma que a dos sonhos: a satisfação de desejos inconscientes. Elas seriam uma forma de nos libertarmos das nossas inibições para expressar agressividade, cinismo, desejos sexuais, enfim, todo tipo de pensamento "imoral". Com as piadas podemos expressar aquilo que de outra forma estaria relegado ao inconsciente.

Por isso o humor traz tanto prazer, sua criação vem de um triunfo sobre a realidade, uma recusa de nos afligirmos demasiadamente com a dureza da vida. Citando Freud "O humor não é resignado, mas rebelde.".

(E depois dizem que humor não é coisa séria.)

Carina Destempero (digestivocultural.com/2014)

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